sexta-feira, 22 de abril de 2011

Da madrugada

São as luzes que me encantam
se esfarelam e brilham.
Na rua trafegam:
vermelhas, brancas.
mas nos meus olhos se negam.
Talvez amarelas.
Para tudo que eu não vejo,
agora eu sorrio.

Essa solidão que me conforta
é a mesma que me atormenta,
e ainda me alimenta.
mesmo cansada,
a esperança me ilumina:
espero por você.
não importa o que seja,
nem de onde vem.
apenas vem.
só assim minha mente inquieta, descansará em paz.

Tudo que eu quero,
completar meu próprio infinito.
de cores, de luzes, de palavras,
de ansiedade constante e tangível.

Fechar os olhos
luzes piscando.
Sentir tudo que existe.
O que eu não sinto? Não existe.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Criatura noturna


Eu sou sensível a tudo que você não vê.
Ando na casa pela madrugada
e ouço tudo que você não ouve.
Jamais desço as escadarias,
não encontro ali poucos objetivos, mas uma maldita responsabilidade ou seria falta de coragem que não me deixa girar a chave.
A madrugada é minha. Só minha, e de mais ninguém.
Eu sou sensível a tudo que você não vê.
Nasce a manhã...
eu não vejo o que você vê.
Sou a sua treva,
mas para mim sempre há luz.
Sou o mais claro da sua escuridão e a hora mais escura do seu dia.
Eu sou tudo aquilo que você não vê.
Sou tudo que não quero mais dizer.
Eu sou a sua má fé na vida,
sou a ausência de esperança.
Para você sou como uma criança: teimosa, desorientada e negligente.
Eu faço tudo sem você querer.
O que mais me fascina é a falta de rotina.
Esperar a vontade, ou talvez a necessidade para ceder.
Me encantam os barulhos da madrugada: todos juntos, mas cada um.
São sempre audíveis, reconhecíveis numa noite calma.
Busco na noite o meu viver,
eu sou tudo o que não quer ver.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Só amores têm depois


E depois? Pense... pense... pense...
mas não penso.
sem entregas
sem memórias
melhores mesmo são os não amores
eles vem, vão, vem e vão (sem dores)
mais ou menos aquela lembrança
talvez uma tarde de verão
aquela que apenas seus neurônios sentirão
e deixarão isentos os sorrisos idiotas, a sensação de leve ardência na pele e principalmente aquela raiva imensa que jura serem apenas aqueles tais hormônios, mas ninguém engana a si mesmo, essa tal de saudade é mesmo uma merda.

Pense... pense.... pense...
mas o que importa o depois?
penso... penso... penso...
Penso que durante é tão bom, real e infinito.
Mas o melhor é que não dure para sempre,
a monotonia não convence, é tão frustada e desinteressante.
Os finais mais trágicos e sinceros, são apenas esses que espero.
Quero apenas o pensar do depois, os durantes não me interessam, quero que esses sejam os mais impensáveis e irrevogáveis.
Os sentimentos devem ser sempre inexoráveis e no fim tem que ter porquê, nada deve ser longo demais que não possa ser explicado, lembrado e relembrado.
O porque deve ser o mais complicado, para que recaídas sejam descartadas
e apenas novos amores deixem novamente na pele aquela saudade irritada.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Confissão


Também quero ser brilhante. Ah... mais como invejo... Invejo esse brilho. Brilha unicamente. Ah... esses olhos... Sinto, particularmente, no meu imaginário de esperanças -abstratas e platônicas, palavras tão conhecidas pelas minhas auto-descrições mais íntimas e secretas. Mais que covardia! Mais quanta covardia eu guardo só pra mim e disfarço com a minha distração, minha falta de atenção em mim, mas em você jamais. Observadora como sou quero tudo ao meu redor, e no meu tudo sempre relativo, você está dentro, por hora, mas pouca coisa pode te tirar. Estou sendo relativa e tentando disfarçar.

domingo, 28 de novembro de 2010

Autocrítica verbalizada


Ninguém ignorava tal situação.Todos se incomodavam com as ideias desprezíveis, mas somente a alguns atingia aquele abandono. Não eram novidades chocantes que chegavam,mas dessa vez os receptores eram os olhos, eram repetições visuais do discurso oral tão conhecido. Acontece que somos seres visuais. Hollywood nos fascina, a Disney nos encanta, a Globo nos politiza e a escola nos educa. São essas as pedras angulares do muro, ou melhor dizendo, muralha. Essa barreira, nada discreta, que decreta a fronteira, não exclusivamente física, mas também. Física no sentido de não poder adentrar tal território:
-Não chegue nos subúrbios, pois lá as pessoas são violentas, mortas de fome e sem coração; lá elas não tem educação, por isso cultura, lá não existe, tudo se resume ao funk, aquele tal de "joga a perereca", isso não é arte. Lá onde as meninas logo engravidam e as crianças pegam em armas, lá onde os velhos apodrecem e os jovens emburrecem. Lá onde todo mundo usa droga, onde todo mundo fica bêbado. Ah.. não queira jamais conhecer lá... essa realidade, que não faz parte do seu mundo.
Então faz se aí o limite. Jamais conhecer as comunidades que cercam a rotina. Mande apenas a sua ajuda: roupas velhas, brinquedos da infância e cestas básicas. É tudo o que se pode fazer, afinal, você não quer mudar o mundo, pois dá trabalho, gasta tempo e dinheiro (muito) e você tem coisas mais importantes na sua vida, jamais esqueça sua carreira. Então fique deste lado, não se arrisque com um tiro de bala perdida, ou uma abordagem de assalto, ou talvez até te matem por você ser do outro lado, que sempre é mais interessante, a inveja é terrível, você sabe...
Não há como dividir o mundo, olhe na história e veja só se isso já deu certo, exemplos não faltam, mas mesmo assim, não interessa, because "Yes, we can." Sim, nós podemos segregar as raças, as classes, as ideologias; sim, nós podemos destruir vidas, transformar gênios, construir dogmas, alimentar preconceitos, fortalecer mitos. O discurso é a nossa principal arma, a que nos permite o uso de tantas outras.
Os ângulos podem ser os mais diversos, mas é certo que só existe uma realidade. Arte também é descrito como manifestação da realidade de modo subjetivo. Então se você não vê o quer dizer, olhe de novo, mude o olhar, tire-o de você, volte-o para você. Ninguém, além de você pode te fazer ver. Tenho medo, muito medo, quem não tem? Medo de morrer, medo de se envolver, cada um tem seu medo, mas o meu é de cair na hipocrisia da minha autocrítica. Nunca disseram que é fácil, e é sempre bom lembrar, que nunca vai faltar alguém ali para dificultar.

sábado, 6 de novembro de 2010

Surpresa



-Então, não prometa nada. – ela avisou categórica – Ou melhor… me prometa seus instantes, todos eles, mas um por um.- ela se corrigiu rindo.

-Tá. E quando eu começo? – um suspiro de cansaço escapou, ela ia começar, outra vez, com essas filosofias de que um segundo vale mais que o mundo. Não que não acreditasse ou achasse que era bobagem, mas é que as coisas sempre eram intermináveis quando começavam nesse ponto, e ela sempre se calava frustada com os infinitos pensamentos ainda inexplorados e tão amplos que seu raciocínio não permitia nem a si mesmo ordenar, o que dirá entender, explicar era totalmente fora de cogitação.

-Ainda não começou? – ela se ofendeu.

Um sorriso tímido tomou-lhe os lábios.

-O que você acha que tem depois da esquina?- ela quebrou o silêncio.

Encarando-a com susto riu, mas logo percebeu que ela estava séria.

-Eu não sei. - deu de ombros.

- Você sabe. –ela protestou.- Não é você quem diz que sabe tudo!

-Não, não sei. – confessou.

- O que tem depois da esquina, ein? – ela insistiu.

-Tem um bar.- vagou com o olhar pelas paredes imundas.

- Onde eu estou? – ela indagou.

- Do lado de fora. – sorriu com esperança. – olhando eu me afastar.

- E onde você vai? – ela fingiu desespero.

- Ao banheiro. – zombou dela, se levantou e saiu.

Poucos instantes depois, voltou, o cabelo negro pingava um pouquinho, vestígios de que lavara o rosto, e os olhos cinzas estavam avermelhados, leve indício de choro.

-O que achou lá? – ela continuou.

Mais um suspiro de cansaço, ela ainda não tinha desistido? Não gostava desses jogos, ela sempre os usava para no final contar algo nada bom. O jogo de surpresas desagradáveis, era como chamava. Sem que ela soubesse, é claro.

-Achei um recado. –contou.

-E o que dizia? - riu curiosa.

-Não sei, não era pra mim. – deu de ombros.

-Pra quem era então? – ela duvidou.

-Era pra você. – assumiu.

-Pra mim? Qual era a cor? – a curiosidade era quase tangível no rosto dela.

-Vermelho, mas, ás vezes, amarelo. – resgatou a ideia.

-Por que não trouxe? – ela se irritou.

-Não ficou verde. – resmungou.

Ela abaixou a cabeça e disse baixinho, era quase inaudível, mas era o mais sincero dos discursos.

-Não vai ficar.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Pra mim



Desce o rio de fronteiras e me encontra lá, onde o céu verde, o oceano fraco solene não há.
Desce. Desce e sobe a ladeira. Mas deixa. Deixa quieta minha pedra. Não venha a pedra chutar,
é minha, só eu dela posso livrar. Solta. Solta essa mão. Larga essa tinta moderna, vai dormir, vai sonhar. Apaga essa luz que não quer descansar. Desacelera. E essas gotas. Teimosas gotas que cismam em escorrer. Deslizam, deslizam e demoram a parar. Devaneios, argumentos nada convincentes. Somente meus. Pra mim.