
Ninguém ignorava tal situação.Todos se incomodavam com as ideias desprezíveis, mas somente a alguns atingia aquele abandono. Não eram novidades chocantes que chegavam,mas dessa vez os receptores eram os olhos, eram repetições visuais do discurso oral tão conhecido. Acontece que somos seres visuais. Hollywood nos fascina, a Disney nos encanta, a Globo nos politiza e a escola nos educa. São essas as pedras angulares do muro, ou melhor dizendo, muralha. Essa barreira, nada discreta, que decreta a fronteira, não exclusivamente física, mas também. Física no sentido de não poder adentrar tal território: -Não chegue nos subúrbios, pois lá as pessoas são violentas, mortas de fome e sem coração; lá elas não tem educação, por isso cultura, lá não existe, tudo se resume ao funk, aquele tal de "joga a perereca", isso não é arte. Lá onde as meninas logo engravidam e as crianças pegam em armas, lá onde os velhos apodrecem e os jovens emburrecem. Lá onde todo mundo usa droga, onde todo mundo fica bêbado. Ah.. não queira jamais conhecer lá... essa realidade, que não faz parte do seu mundo.
Então faz se aí o limite. Jamais conhecer as comunidades que cercam a rotina. Mande apenas a sua ajuda: roupas velhas, brinquedos da infância e cestas básicas. É tudo o que se pode fazer, afinal, você não quer mudar o mundo, pois dá trabalho, gasta tempo e dinheiro (muito) e você tem coisas mais importantes na sua vida, jamais esqueça sua carreira. Então fique deste lado, não se arrisque com um tiro de bala perdida, ou uma abordagem de assalto, ou talvez até te matem por você ser do outro lado, que sempre é mais interessante, a inveja é terrível, você sabe...
Não há como dividir o mundo, olhe na história e veja só se isso já deu certo, exemplos não faltam, mas mesmo assim, não interessa, because "Yes, we can." Sim, nós podemos segregar as raças, as classes, as ideologias; sim, nós podemos destruir vidas, transformar gênios, construir dogmas, alimentar preconceitos, fortalecer mitos. O discurso é a nossa principal arma, a que nos permite o uso de tantas outras.
Os ângulos podem ser os mais diversos, mas é certo que só existe uma realidade. Arte também é descrito como manifestação da realidade de modo subjetivo. Então se você não vê o quer dizer, olhe de novo, mude o olhar, tire-o de você, volte-o para você. Ninguém, além de você pode te fazer ver. Tenho medo, muito medo, quem não tem? Medo de morrer, medo de se envolver, cada um tem seu medo, mas o meu é de cair na hipocrisia da minha autocrítica. Nunca disseram que é fácil, e é sempre bom lembrar, que nunca vai faltar alguém ali para dificultar.
