segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Confissão


Também quero ser brilhante. Ah... mais como invejo... Invejo esse brilho. Brilha unicamente. Ah... esses olhos... Sinto, particularmente, no meu imaginário de esperanças -abstratas e platônicas, palavras tão conhecidas pelas minhas auto-descrições mais íntimas e secretas. Mais que covardia! Mais quanta covardia eu guardo só pra mim e disfarço com a minha distração, minha falta de atenção em mim, mas em você jamais. Observadora como sou quero tudo ao meu redor, e no meu tudo sempre relativo, você está dentro, por hora, mas pouca coisa pode te tirar. Estou sendo relativa e tentando disfarçar.

domingo, 28 de novembro de 2010

Autocrítica verbalizada


Ninguém ignorava tal situação.Todos se incomodavam com as ideias desprezíveis, mas somente a alguns atingia aquele abandono. Não eram novidades chocantes que chegavam,mas dessa vez os receptores eram os olhos, eram repetições visuais do discurso oral tão conhecido. Acontece que somos seres visuais. Hollywood nos fascina, a Disney nos encanta, a Globo nos politiza e a escola nos educa. São essas as pedras angulares do muro, ou melhor dizendo, muralha. Essa barreira, nada discreta, que decreta a fronteira, não exclusivamente física, mas também. Física no sentido de não poder adentrar tal território:
-Não chegue nos subúrbios, pois lá as pessoas são violentas, mortas de fome e sem coração; lá elas não tem educação, por isso cultura, lá não existe, tudo se resume ao funk, aquele tal de "joga a perereca", isso não é arte. Lá onde as meninas logo engravidam e as crianças pegam em armas, lá onde os velhos apodrecem e os jovens emburrecem. Lá onde todo mundo usa droga, onde todo mundo fica bêbado. Ah.. não queira jamais conhecer lá... essa realidade, que não faz parte do seu mundo.
Então faz se aí o limite. Jamais conhecer as comunidades que cercam a rotina. Mande apenas a sua ajuda: roupas velhas, brinquedos da infância e cestas básicas. É tudo o que se pode fazer, afinal, você não quer mudar o mundo, pois dá trabalho, gasta tempo e dinheiro (muito) e você tem coisas mais importantes na sua vida, jamais esqueça sua carreira. Então fique deste lado, não se arrisque com um tiro de bala perdida, ou uma abordagem de assalto, ou talvez até te matem por você ser do outro lado, que sempre é mais interessante, a inveja é terrível, você sabe...
Não há como dividir o mundo, olhe na história e veja só se isso já deu certo, exemplos não faltam, mas mesmo assim, não interessa, because "Yes, we can." Sim, nós podemos segregar as raças, as classes, as ideologias; sim, nós podemos destruir vidas, transformar gênios, construir dogmas, alimentar preconceitos, fortalecer mitos. O discurso é a nossa principal arma, a que nos permite o uso de tantas outras.
Os ângulos podem ser os mais diversos, mas é certo que só existe uma realidade. Arte também é descrito como manifestação da realidade de modo subjetivo. Então se você não vê o quer dizer, olhe de novo, mude o olhar, tire-o de você, volte-o para você. Ninguém, além de você pode te fazer ver. Tenho medo, muito medo, quem não tem? Medo de morrer, medo de se envolver, cada um tem seu medo, mas o meu é de cair na hipocrisia da minha autocrítica. Nunca disseram que é fácil, e é sempre bom lembrar, que nunca vai faltar alguém ali para dificultar.

sábado, 6 de novembro de 2010

Surpresa



-Então, não prometa nada. – ela avisou categórica – Ou melhor… me prometa seus instantes, todos eles, mas um por um.- ela se corrigiu rindo.

-Tá. E quando eu começo? – um suspiro de cansaço escapou, ela ia começar, outra vez, com essas filosofias de que um segundo vale mais que o mundo. Não que não acreditasse ou achasse que era bobagem, mas é que as coisas sempre eram intermináveis quando começavam nesse ponto, e ela sempre se calava frustada com os infinitos pensamentos ainda inexplorados e tão amplos que seu raciocínio não permitia nem a si mesmo ordenar, o que dirá entender, explicar era totalmente fora de cogitação.

-Ainda não começou? – ela se ofendeu.

Um sorriso tímido tomou-lhe os lábios.

-O que você acha que tem depois da esquina?- ela quebrou o silêncio.

Encarando-a com susto riu, mas logo percebeu que ela estava séria.

-Eu não sei. - deu de ombros.

- Você sabe. –ela protestou.- Não é você quem diz que sabe tudo!

-Não, não sei. – confessou.

- O que tem depois da esquina, ein? – ela insistiu.

-Tem um bar.- vagou com o olhar pelas paredes imundas.

- Onde eu estou? – ela indagou.

- Do lado de fora. – sorriu com esperança. – olhando eu me afastar.

- E onde você vai? – ela fingiu desespero.

- Ao banheiro. – zombou dela, se levantou e saiu.

Poucos instantes depois, voltou, o cabelo negro pingava um pouquinho, vestígios de que lavara o rosto, e os olhos cinzas estavam avermelhados, leve indício de choro.

-O que achou lá? – ela continuou.

Mais um suspiro de cansaço, ela ainda não tinha desistido? Não gostava desses jogos, ela sempre os usava para no final contar algo nada bom. O jogo de surpresas desagradáveis, era como chamava. Sem que ela soubesse, é claro.

-Achei um recado. –contou.

-E o que dizia? - riu curiosa.

-Não sei, não era pra mim. – deu de ombros.

-Pra quem era então? – ela duvidou.

-Era pra você. – assumiu.

-Pra mim? Qual era a cor? – a curiosidade era quase tangível no rosto dela.

-Vermelho, mas, ás vezes, amarelo. – resgatou a ideia.

-Por que não trouxe? – ela se irritou.

-Não ficou verde. – resmungou.

Ela abaixou a cabeça e disse baixinho, era quase inaudível, mas era o mais sincero dos discursos.

-Não vai ficar.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Pra mim



Desce o rio de fronteiras e me encontra lá, onde o céu verde, o oceano fraco solene não há.
Desce. Desce e sobe a ladeira. Mas deixa. Deixa quieta minha pedra. Não venha a pedra chutar,
é minha, só eu dela posso livrar. Solta. Solta essa mão. Larga essa tinta moderna, vai dormir, vai sonhar. Apaga essa luz que não quer descansar. Desacelera. E essas gotas. Teimosas gotas que cismam em escorrer. Deslizam, deslizam e demoram a parar. Devaneios, argumentos nada convincentes. Somente meus. Pra mim.

domingo, 3 de outubro de 2010

Mecanicamente


Ensina-me a arte de esquecer. Lembra-me dos horários.Aceita minhas divergências.Duvida de todas as minhas teorias. Alimenta minhas distrações. Ajuda meu interesse.Produza no meu ócio. Desculpa meus devaneios. Aproveita meus deslizes. Ria das minhas idiotices. Acalma-me no desespero.Sofra com meus fracassos. Considera meu orgulho. Apoia meus arrependimentos.
Não mente.Só seja-me.
Não seja só mente. Não seja somente.

domingo, 19 de setembro de 2010

Diálogos do nosso caminho



Chegamos então a tal conclusão: não vamos nos definir, dizer quem somos não nos interessa, já não sabemos e nem queremos saber. Conversaremos sobre assuntos polêmicos, discutiremos sobre filmes, discursaremos sobre livros, discordaremos sobre futebol. Quando cansarmos, não lutaremos contra. Não vale a pena esgotarmos assuntos que renderão muito mais amanhã. Dormiremos em camas de gatos e sonharemos como Dalí. É uma pena que nos falte talento, dedicação e persistência, para depois, como ele, representarmos artisticamente tudo de surreal que, durante a noite, passou em nossa mente. Mas não lamentaremos tal coisa, lamentar deixa tudo mais enjoado. Então apenas deixemos de lado que depois, mais tarde, os assuntos mais banais, ou até mesmo conversas críticas e filosóficas hão de nos tomar. E nossas conversas serão como Frida e Diego que com muito estardalhaço sempre voltam ao mesmo lugar. Bom, talvez até, elas acabem e o final pode ser trágico como Poe, louco como Almodóvar, engraçado como Depp ou poético como Vinícius.
Não buscamos uma vida linear, não gostamos de pensar que ela vai acabar. Desceremos no próximo ponto e duvidaremos de Fernando, veremos se vale a pena, pois não temos a alma pequena.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sou passageiro


Sou uma flor,
tenho pétalas brancas
e perfume doce.
O sapato me esmaga,
agora sou lama.

Sou um papel,
tenho cor parda
e textura fina.
A caneta me rabisca,
agora sou carta.

Sou uma vida,
tenho destino singular
e tempo farto.
A arma dispara,
agora sou morte.

Sou um instante,
tenho escolhas pendentes
e futuro breve.
Eu passo,
o próximo segue...

terça-feira, 29 de junho de 2010

Mais


Não quero fugir.
Não vou voltar,
posso ir além.
Deixa eu provar.
Tem algo mais fundo?
Quase no fim do mundo?
(ou talvez depois)
Leva-me lá!
Não vai comigo?
Respeita meu vício,
nasci para tentar.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

As melhores fotos


Não deixo passar a magia.
Não fecho os olhos.
Abro a mente.
Não ouço, escuto.
Tiro fotos, sorrio.

O olho é a câmera;
o sorriso é o obturador.
Deixo entrar mais luz,
abro mais o sorriso.
Ilumino mais tempo,
está tudo tão escuro.
Não tem tripé, mas não importa,
não vai tremer,está na memória.
Abandono o flash,
a luz é minha.
Eu sou meu equipamento.

Não deixo passar a magia.
Não fecho os olhos.
Abro a mente.
Não ouço, escuto.
Tiro fotos, sorrio.

A magia está no instante que passa.
As fotos estão em todos os instantes.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Era uma vez um presente


Quando uma vida inteira é perdida
uma estória inteira é ganha.
Mas e as estórias das vidas perdidas?
Como pode fazer estória de vida que foi
e não fazer vida da estória que é?

Como só ganha depois que morre?
Como só conhece depois que foi?
Como lamenta sofrimento passado?
Pra que tanto exemplo de dor?
Hoje não é mais como era antigamente.
Não era mais como era antigamente,
quando antigamente era hoje.

O papel é o futuro
A caneta é o presente
E a página do passado já virou
A estória é da gente.

Desejo


SÁBADO, 30 DE JANEIRO DE 2010


Eu quero o ócio produtivo

e a beleza dessa vida mansa;
a beleza presente nas pessoas,
mas ausente nas ações.

Eu quero o ócio produtivo
e a criatividade dessa vida insana;
a criatividade que persegue nos sonhos,
mas que abandona nas soluções.

Eu quero o ócio produtivo
e a sabedoria dessa vida imensa;
a sabedoria capaz de apresentar,
mas que apenas esconde.

Eu quero a identidade plena
e o fim da conformidade histérica.
Eu quero a inibicão do vício
e a exposição do ser.