sábado, 6 de novembro de 2010

Surpresa



-Então, não prometa nada. – ela avisou categórica – Ou melhor… me prometa seus instantes, todos eles, mas um por um.- ela se corrigiu rindo.

-Tá. E quando eu começo? – um suspiro de cansaço escapou, ela ia começar, outra vez, com essas filosofias de que um segundo vale mais que o mundo. Não que não acreditasse ou achasse que era bobagem, mas é que as coisas sempre eram intermináveis quando começavam nesse ponto, e ela sempre se calava frustada com os infinitos pensamentos ainda inexplorados e tão amplos que seu raciocínio não permitia nem a si mesmo ordenar, o que dirá entender, explicar era totalmente fora de cogitação.

-Ainda não começou? – ela se ofendeu.

Um sorriso tímido tomou-lhe os lábios.

-O que você acha que tem depois da esquina?- ela quebrou o silêncio.

Encarando-a com susto riu, mas logo percebeu que ela estava séria.

-Eu não sei. - deu de ombros.

- Você sabe. –ela protestou.- Não é você quem diz que sabe tudo!

-Não, não sei. – confessou.

- O que tem depois da esquina, ein? – ela insistiu.

-Tem um bar.- vagou com o olhar pelas paredes imundas.

- Onde eu estou? – ela indagou.

- Do lado de fora. – sorriu com esperança. – olhando eu me afastar.

- E onde você vai? – ela fingiu desespero.

- Ao banheiro. – zombou dela, se levantou e saiu.

Poucos instantes depois, voltou, o cabelo negro pingava um pouquinho, vestígios de que lavara o rosto, e os olhos cinzas estavam avermelhados, leve indício de choro.

-O que achou lá? – ela continuou.

Mais um suspiro de cansaço, ela ainda não tinha desistido? Não gostava desses jogos, ela sempre os usava para no final contar algo nada bom. O jogo de surpresas desagradáveis, era como chamava. Sem que ela soubesse, é claro.

-Achei um recado. –contou.

-E o que dizia? - riu curiosa.

-Não sei, não era pra mim. – deu de ombros.

-Pra quem era então? – ela duvidou.

-Era pra você. – assumiu.

-Pra mim? Qual era a cor? – a curiosidade era quase tangível no rosto dela.

-Vermelho, mas, ás vezes, amarelo. – resgatou a ideia.

-Por que não trouxe? – ela se irritou.

-Não ficou verde. – resmungou.

Ela abaixou a cabeça e disse baixinho, era quase inaudível, mas era o mais sincero dos discursos.

-Não vai ficar.

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