domingo, 28 de novembro de 2010

Autocrítica verbalizada


Ninguém ignorava tal situação.Todos se incomodavam com as ideias desprezíveis, mas somente a alguns atingia aquele abandono. Não eram novidades chocantes que chegavam,mas dessa vez os receptores eram os olhos, eram repetições visuais do discurso oral tão conhecido. Acontece que somos seres visuais. Hollywood nos fascina, a Disney nos encanta, a Globo nos politiza e a escola nos educa. São essas as pedras angulares do muro, ou melhor dizendo, muralha. Essa barreira, nada discreta, que decreta a fronteira, não exclusivamente física, mas também. Física no sentido de não poder adentrar tal território:
-Não chegue nos subúrbios, pois lá as pessoas são violentas, mortas de fome e sem coração; lá elas não tem educação, por isso cultura, lá não existe, tudo se resume ao funk, aquele tal de "joga a perereca", isso não é arte. Lá onde as meninas logo engravidam e as crianças pegam em armas, lá onde os velhos apodrecem e os jovens emburrecem. Lá onde todo mundo usa droga, onde todo mundo fica bêbado. Ah.. não queira jamais conhecer lá... essa realidade, que não faz parte do seu mundo.
Então faz se aí o limite. Jamais conhecer as comunidades que cercam a rotina. Mande apenas a sua ajuda: roupas velhas, brinquedos da infância e cestas básicas. É tudo o que se pode fazer, afinal, você não quer mudar o mundo, pois dá trabalho, gasta tempo e dinheiro (muito) e você tem coisas mais importantes na sua vida, jamais esqueça sua carreira. Então fique deste lado, não se arrisque com um tiro de bala perdida, ou uma abordagem de assalto, ou talvez até te matem por você ser do outro lado, que sempre é mais interessante, a inveja é terrível, você sabe...
Não há como dividir o mundo, olhe na história e veja só se isso já deu certo, exemplos não faltam, mas mesmo assim, não interessa, because "Yes, we can." Sim, nós podemos segregar as raças, as classes, as ideologias; sim, nós podemos destruir vidas, transformar gênios, construir dogmas, alimentar preconceitos, fortalecer mitos. O discurso é a nossa principal arma, a que nos permite o uso de tantas outras.
Os ângulos podem ser os mais diversos, mas é certo que só existe uma realidade. Arte também é descrito como manifestação da realidade de modo subjetivo. Então se você não vê o quer dizer, olhe de novo, mude o olhar, tire-o de você, volte-o para você. Ninguém, além de você pode te fazer ver. Tenho medo, muito medo, quem não tem? Medo de morrer, medo de se envolver, cada um tem seu medo, mas o meu é de cair na hipocrisia da minha autocrítica. Nunca disseram que é fácil, e é sempre bom lembrar, que nunca vai faltar alguém ali para dificultar.

sábado, 6 de novembro de 2010

Surpresa



-Então, não prometa nada. – ela avisou categórica – Ou melhor… me prometa seus instantes, todos eles, mas um por um.- ela se corrigiu rindo.

-Tá. E quando eu começo? – um suspiro de cansaço escapou, ela ia começar, outra vez, com essas filosofias de que um segundo vale mais que o mundo. Não que não acreditasse ou achasse que era bobagem, mas é que as coisas sempre eram intermináveis quando começavam nesse ponto, e ela sempre se calava frustada com os infinitos pensamentos ainda inexplorados e tão amplos que seu raciocínio não permitia nem a si mesmo ordenar, o que dirá entender, explicar era totalmente fora de cogitação.

-Ainda não começou? – ela se ofendeu.

Um sorriso tímido tomou-lhe os lábios.

-O que você acha que tem depois da esquina?- ela quebrou o silêncio.

Encarando-a com susto riu, mas logo percebeu que ela estava séria.

-Eu não sei. - deu de ombros.

- Você sabe. –ela protestou.- Não é você quem diz que sabe tudo!

-Não, não sei. – confessou.

- O que tem depois da esquina, ein? – ela insistiu.

-Tem um bar.- vagou com o olhar pelas paredes imundas.

- Onde eu estou? – ela indagou.

- Do lado de fora. – sorriu com esperança. – olhando eu me afastar.

- E onde você vai? – ela fingiu desespero.

- Ao banheiro. – zombou dela, se levantou e saiu.

Poucos instantes depois, voltou, o cabelo negro pingava um pouquinho, vestígios de que lavara o rosto, e os olhos cinzas estavam avermelhados, leve indício de choro.

-O que achou lá? – ela continuou.

Mais um suspiro de cansaço, ela ainda não tinha desistido? Não gostava desses jogos, ela sempre os usava para no final contar algo nada bom. O jogo de surpresas desagradáveis, era como chamava. Sem que ela soubesse, é claro.

-Achei um recado. –contou.

-E o que dizia? - riu curiosa.

-Não sei, não era pra mim. – deu de ombros.

-Pra quem era então? – ela duvidou.

-Era pra você. – assumiu.

-Pra mim? Qual era a cor? – a curiosidade era quase tangível no rosto dela.

-Vermelho, mas, ás vezes, amarelo. – resgatou a ideia.

-Por que não trouxe? – ela se irritou.

-Não ficou verde. – resmungou.

Ela abaixou a cabeça e disse baixinho, era quase inaudível, mas era o mais sincero dos discursos.

-Não vai ficar.